Circuito Inferior - Raul Mourão

Centro Cultural Veras. 2025

Montar um conjunto de esculturas que ganhou forma ao longo de trinta e cinco anos da prática do artista Raul Mourão consistiu em preservar dois pontos centrais no contexto da exposição Circuito Inferior. O primeiro foi a observação de como os elos urbanos são comumente desfeitos em “territórios usados” por comunidades que mantêm uma capacidade essencial de qualificar seus espaços com diversidade, inovação e resistência. O segundo nomeia a exposição e constitui um conceito central no pensamento do geógrafo Milton Santos, que ensinou o Brasil a perceber como sistemas de legitimação e exclusão insistem em definir vozes não autorizadas na elaboração de circuitos decisivos para a preservação de tais territórios. Como contraparte, os grupos que detêm os instrumentos de organização espacial foram definidos por ele como integrantes do circuito superior, responsáveis por organizar seletivamente informação, recursos, decisões urbanas e ambientais. Ambos os circuitos interagem, cabendo ao inferior o cuidado em preservar sua autonomia para não se desmontar diante das estratégias que buscam impor subserviência e inércia aos seus integrantes.

Nas esculturas realizadas com metais que se articulam e se movimentam sobre objetos do cotidiano estão contidos elementos fundamentais para compreender a mobilização do artista com estes circuitos a partir do sistema de arte. Sua perspectiva são os circuitos inferiores presentes na comunicação livre sobre muros, no comercio informal e em suas ecologias de convivência. Seu corpo de obras condensa, com isso, tensão e equilíbrio em dinâmicas urbanas traduzidas em estruturas que exigem cuidado durante a manipulação responsável por ativar seus movimentos pendulares.

Assim como acontece na prática que o artista preserva em seu ateliê, é possível perceber no circuito inferior uma pedagogia não formal do fazer, indissociável do existir em comunidade. Não por acaso, em todas os movimentos dos quais o artista participou ao longo de décadas há uma tentativa de viver pela prática de observar arranjos informais de cuidado que escapam à lógica da homogeneização cultural, algo comum aos circuitos cruzados em sua prática.  Seguro da capacidade que a arte possui de restaurar a potência social, simbólica e ética de espaços de convívio não moldados pela exigência de rentabilidade, o artista preserva sua atenção aos movimentos que proliferam insurgência poética na cidade.

Seja na cadeira aprisionada, no cachorro de pedras, no automóvel estanque contra a parede ou no movimento vulnerável da estrutura de metal sobre a unidade construtiva, Mourão conduz a percepção do público a uma malha complexa que sustenta o funcionamento urbano. Ao ativar formas e materiais associados à arquitetura, aos mecanismos de segurança e à mobilidade das ruas, suas esculturas incorporam o jogo e a contenção como meio de revelar como o corpo social se acomoda, resiste e se reinventa diante de forças que regulam a sobrevivência cotidiana.