O cio da terra, ócio da terra

Fundação Pablo Atchugarry e The55Project,  2023

Albano Afonso, Afonso Tostes, Bárbara Wagner & Benjamin De Burca, Bel Falleiros, Bené Fonteles, Brígida Baltar, Celeida Tostes, Cristiano Lenhardt, Efe Godoy, Efrain Almeida, Ernesto Neto, Elza Lima, Gustavo Caboco, Ivan Grilo, Jorgge Menna Barreto e Joelson Buggila, Juliana Lapa, Kamikia Kisêdjê, Laura Gorski, Lia Chaia, Lídia Lisbôa, Marcia Xavier, Mariana Berta, Mônica Ventura, Rafael RG, Renata Cruz, Rosana Paulino, Rose Afefé, Sallisa Rosa, Teresa Siewerdt.

Apesar das semelhanças semânticas entre “ócio” e “cio”, duas palavras da língua portuguesa, elas carregam significados diametralmente opostos. Associadas à dimensão materna da Terra, as diferenças que as definem qualificam todas as formas de vida regidas por ciclos de fertilidade e pausa. Como o “cio” é o contraponto que complementa e define o “ócio”, desconsiderar a integração de ambos seria o mesmo que separar o nascimento da morte — e ambos do ressurgimento — como exemplificam as sementes que precisam “morrer para poder nascer”, como canta Gilberto Gil em Drão (1982), canção dedicada aos ciclos de amadurecimento do afeto.

A música popular brasileira está na raiz da exposição-laboratório O cio da terra | Ócio da terra, onde artistas e agricultores de diferentes gerações se reúnem para enfrentar o avanço de soluções que destroem a biodiversidade. O cerne deste projeto reside nos versos da canção que lhe dá título, composta por Milton Nascimento e Chico Buarque. De fato, “acariciar a terra | conhecer os desejos da terra” pluraliza as formas de relação entre natureza e cultura, ecoando a ideia de que satisfazer a Terra é também acolher seus desejos — o que equivale a cuidar das diversas formas de vida que nela nascem, morrem e renascem.