Eu fui o que tu és, e tu serás o que eu sou

Paço das Artes, 2012

Albano Afonso, Bill Viola, Brígida Baltar, Bruno Kurru, Caetano Dias, Charly Nijensohn, Daré, Evandro Machado, José Rufino, Karina Zen, Marina Abramovic, Odires Mlászho, Oscar Munoz, Tamara Andrade, Vasco Araújo e Vitor Mizael

 Eu fui o que tu és, e tu serás o que eu sou é o encontro de tempos que aproximam a prática artística contemporânea do enunciado presente no registro inferior do afresco La Trinità (1425-26), de Masaccio, conservado na igreja Santa Maria Novella, em Florença. No contexto da exposição que aproxima distintas gerações de artistas com modos de pensar os ciclos de nascimentos e mortes, Eu fui o que tu és, e tu serás o que eu sou é um aviso extraído do contexto renascentista com a finalidade de fazer ecoar formas distintas de tornar visível um conjunto de memento mori desvinculado do imaginário do juízo e da danação. Trata-se de conviver com as pequenas mortes, com a ideia de passagem como processo da vida, perene, sem começo e fim. Sendo uma travessia que convoca preparo cotidiano, a morte é uma entidade que relembra a importância de dialogar com a finitude com a voz da força anônima que opera dentro do corpo. Em vez de reafirmar dicotomias entre vida e morte, o grupo de obras composto por vídeos, fotografias, esculturas, desenhos, pinturas e objetos lidam com zonas instáveis que acompanham quem enuncia e quem escuta sobre a decomposição paulatina de imagens e identidades.

 

Entre mortes cotidianas, trocas de pele e transformações que redefinem o eu consumido pelo tempo, o grupo de artistas escuta da morte a experiência de antepassados, integra o corpo aos elementos da natureza, faz dele uma explosão cósmica que transforma o sujeito feito de mente e sentidos em espaço sideral ou imagem que se apaga de maneira fugas. Os moldes e o duplo de autorretratos levam a pensar sobre o indivíduo que escapa ao tempo cronológico. Considera aquele eu que interroga, nutre curiosidades e uma relação estreita com o mistério da vida. Este sujeito é quem enuncia a frase a seu interlocutor. Para além de morte fisiológica, esta personalidade oculta se mostra na exposição como quem atravessa o campo minado da história. Aponta a realidade que nos atravessa no aqui e agora, a qual é costumeiramente abafada pelo sem fim de sem fim de distrações que retardam o encontro inevitável com o que eu que não nasce e morre.