Nara Guichon: Rede Fantasma
Centro Cultural Veras, 2024







A massa terrestre é bastante inferior ao tamanho dos oceanos, que cobrem pouco mais de 70% da superfície do planeta. Ainda assim, com território inferior a 30%, os humanos, instalados sobre a su-perfície denominada “terra firme”, são responsáveis pela totalidade da produção de resíduos, detritos e rejeitos que assombram a vida terrestre e maritima. A uma parte desse refugo que vive nas pro-fundezas dos oceanos é dado o nome de rede fantasma.
Nara Guichon faz uso dessas redes, em ações que a acompanham ao longo de pouco mais de quatro décadas. Recentemente devota-da à escultura e à instalação, seus últimos anos foram marcados pela produção de entrelaçamentos de matéria que aludem às formas de vida ameaçadas pela intervenção predatória de hu-manos nos mares. Tendo sido lançados voluntariamente, esqueci-dos ou desprendidos de embarcações, os corpos fantasmagóricos que vagueiam pelos oceanos representam o extermínio de vidas que atravessam campos sem fronteiras e delimitações.
Com suas esculturas, a artista convoca o participante a tocar as peças, a entrar em contato com essa matéria inerte que vagueia e é capaz de exterminar vidas ao longo de séculos. No mesmo grau em que a experiência gera fascínio, ela busca alguma equivalência com uma fração da angústia com que as vidas marítimas se depa-ram, surpreendidas por uma assombração que as entrelaça, geran-do sufocamento aos seres que precisam retornar à superfície para ganhar fôlego ou, ainda, prendendo seus órgãos de reprodução, evacuação ou nutrição. Sem poder comer, se reproduzir ou evacuar, são dizimados enquanto vão de um lado a outro, com a mesma trivialidade com que nos deslocamos no cotidiano. Talvez por essa razão o toque sugerido pela artista é convite ao espelhamento dessas vidas em nossos corpos. A suposição de algo responsável por nos enredar enquanto atravessamos a faixa de pedestres, ou deixamos um ponto da cidade, de volta à casa, são realidades que simulam a vulnerabilidade de vidas que convivem com a barbárie em forma de fantasma.
Inclusive, a despeito de o nome dos dejetos suscitarem certa exigu-idade, as redes fantasma aparecem em grande quantidade em mares de todo o planeta. Anualmente, 570 toneladas de tais as-sombrações são abandonadas no oceano. Por isso, em Rede Fantasma, a artista faz do espaço expositivo um lugar de imersão oceânica. Embora extraída de um dejeto que influencia em vários aspectos as mudanças climáticas, a acidificação dos oceanos e o extermínio da biodiversidade marítima, sua obra evoca parte do esplendor da vegetação que se enraíza na inalcançável profundidade oceânica.